Amanhã pode ser tarde demais.

A vida passa em um instante. Entre um relance e outro na janela do metrô, naquele segundo em que você olha alguém que te abraça, nos minutos que você perde amarrando os cadarços que soltaram de novo e no tempo infinito que seu computador demora pra reiniciar.

A vida é breve e a gente se esquece disso. Esquece de que o tchau apressado que demos ontem sem nenhum afeto a alguém infinitamente amado pode ter sido, na realidade, um último adeus. Esquece que amanhã ou daqui a um segundo a vida pode simplesmente acabar. Acabar pra mim, pra você e pra quem a gente sabe que, se for, vai levar um pedaço da gente tão profundo que – de completo – não teremos mais o coração.

A vida é tão rara que enquanto a gente anda distraída pela tela de algum aparelho eletrônico o ar se torna mais rarefeito e a gente não percebe. A gente nem vê – ou se esquece de que vê – o tempo que passa desperdiçado em tolices ou jogado ao vento enquanto discutimos sobre a vida (ou com a vida) sobre o salário, a corrupção, o tempo, a solidão ou coisa que o valha.

A vida se esvai e mesmo assim continuamos desperdiçando o amor e a presença. Continuamos tirando o pen drive com segurança, continuamos usando mais o tempo virtual que o real. Continuamos tendo medo do amor. Continuamos deixando de aproveitar os raros momentos que nos restam com as pessoas que amamos por orgulho, pela certeza de um amanhã duvidoso, ou simplesmente porque deixamos a vida tomar conta do nosso tempo ao invés de termos o pulso de domarmos nosso próprio tempo e estabelecermos prioridades justas ao nosso coração.

Deve ser por isso que – quando nos esquecemos de cultivar as nossas roseiras, ou ainda, quando cultivamos certo, as roseiras erradas; deve ser por isso que, vez ou outra, vem a Roda Viva e leva o destino pra lá escancarando na nossa frente que amanhã pode ser tarde demais. Tarde demais pra passar mais tempo junto com ele; tarde demais pra confessar seu amor por ela. Tarde demais pra marcar uma vez por mês um almoço com aquela pessoa de quem você não quer se afastar.

Amanhã pode ser tarde demais e é por isso que dar amor (e tempo) pras pessoas que amamos é, na realidade, um presente pra nós mesmos. Porque se dermos cada abraço como se fosse o último; se estivermos de fato onde estamos; se a nossa presença for real e sincera; ainda que nosso abraço – daqueles que não sabiam que seriam o último abraço – seja de fato o último; estaremos em paz.

Por que, no final das contas, a vida é mesmo rara e deixar para fazer as pazes consigo e com os outros amanhã é esperar por um tempo que pode nunca chegar.

Escrito por Kéren Carvalho, colunista do site Sábias Palavras.

Gostou? Compartilhe!

COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS