Agradeça por aquilo que você ainda tem

-Tô mal, irmão! – disse-me o André, antes de matar o segundo chope, acender o quinto cigarro e afirmar, pela vigésima vez, que deveria ter dado mais atenção à namorada (agora ex).

– Eu sei exatamente o que está sentindo! – respondi.

– A sua namorada também partiu?

– Não, felizmente ela ainda não chutou as minhas nádegas. Mas o meu avô está partindo, cara. Está bem mais pra lá – onde quer que “lá” seja – do que pra cá. E só agora, pertíssimo do fim, arrependo-me por não ter tentado retomar o contato que deixamos morrer em meio às desavenças e vaidades da nossa família. Arrependo-me por não ter tocado o interfone, puxado um papo de elevador sobre o Palmeiras e pedido para experimentar um licor qualquer. Arrependo-me por ter permitido que o medo de não ser bem recebido e a vergonha por não ter sequer telefonado paralisassem a coragem necessária para que nosso laço não terminasse assim, ao som da mais dolorosa de todas as perguntas: “Como seria se eu tivesse feito mais?”.

Assim, com uma questão que demorou a parar de ecoar por aquele bar e por nossas mentes, terminou aquele mar de arrependimentos, e, felizmente, nasceu a minha mais nova obsessão: dar valor – muito valor! – àquilo (não apenas avós e namoradas) que AINDA tenho. Dar valor e agradecer, sempre que houver a mínima chance. E sugiro que você, querida leitora, comece a fazer o mesmo.

Que tal parar de sonhar com os príncipes encantados que você não tem – e que não existem fora dos contos de fadas – e começar a dar valor ao homem real que, todos os dias, faz de tudo para transformar seus pesadelos em sonhos lindos?

Que tal beijar o seu namorado, até sentir câimbra nos beiços, enquanto a boca dele ainda está pertinho e ansiosa pela chegada da sua? Depois, quando a língua dele estiver longe, indisponível ou colada em outra, de nada adiantará reclamar, espernear ou chorar. Saiba que o arrependimento – por maior que seja – não traz ninguém de volta. E que beijar fotos, definitivamente, não tem o mesmo sabor.

Que tal olhar para o lado – mais precisamente para o sofá da sala – e sorrir para o cara de mamão que está lá, com um olho em você e outro num filme de ação. Por quê? Porque você não tem ideia do quanto ele está ansioso por isso. Você não imagina o quão frustrado e impotente ele se sente por não conseguir mais fazer você demonstrar alegria. Sorria!

Que tal agradecer por poder andar, enxergar, ouvir, falar, pensar e respirar?Vai esperar a vida lhe pregar ou – o que é pior – tirar uma peça? A sua saúde é muito mais frágil do que imagina; por isso, valorize-a enquanto você ainda a tem. Cuide-se antes que um médico diga que você precisa se cuidar para não morrer. Não espere um enfarto para mudar os hábitos. Não espere o pior para começar a ser melhor com aquilo que realmente importa: seu corpo. Ao invés de reclamar por possuir as pernas minimamente tortas, agradeça pelos passos que é capaz de dar. Ao invés de se sentir frustrada por não ter olhos azuis, dê valor ao funcionamento perfeito da sua visão. Agradeça pelo tanto que tem e, muitas vezes, não percebe.

Que tal frear essa ganância perigosa e idiota – que faz você dar valor apenas ao que não tem – e começar a agradecer pelo tanto que já possui? Hein? Não sabe como fazer? Vou começar para você:

Obrigado, mãe, pelo carinho que você nunca – nunquinha! – me deixou faltar.Obrigado pelas muitas vezes que você me cobriu quando o frio chegou sem avisar. Obrigado pelos guarda-chuvas que você me fez levar, quando o céu ainda estava azul. Obrigado pela proteção que você me deu quando eu me senti totalmente vulnerável, sem rumo ou mapas. Obrigado pelo caráter e honestidade que você ensinou a ter. Obrigado, de verdade.

Obrigado, pai, pelos beijos gostosos que você deu em minha testa. Obrigado por não ter contestado as minhas escolhas mais absurdas. Obrigado por ter acreditado em meus sonhos mais malucos. Obrigado pelos filmes que vimos juntos. Obrigado pelos macarrões deliciosos que você fez para mim. Obrigado, de verdade.

Obrigado, namorada, pelos domingos que, de tão gostosas, poderiam ser confundidos com sábados. Ou com sextas. Obrigado pelas vezes que me você abraçou no meio da noite. Obrigado pelos ouvidos que me doou quando eu precisei, urgentemente, desabafar. Obrigado pelo cafuné que você me fez quando eu senti insônia. Obrigado, de verdade.

Obrigado, vida, pelo tanto que você me já deu. Já quis muitas coisas, mas hoje, sinceramente, só quero a sabedoria para manter aquilo que tenho.

É claro que eu tenho sonhos, mas, se nada do que desejo der certo, agradeço pelo tanto que já possuo. Obrigado, de verdade.

Valeu.

FONTECat Walk
TEXTO DERicardo Coiro
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