A teoria da bromélia

Você pode esquecer do seu primeiro beijo. Você pode esquecer de alguém que namorou. Você pode esquecer de paixões do passado. Você pode esquecer de tudo nessa vida, mas você nunca se esquecerá de nenhuma vez em que foi sentimentalmente enrolada.É, infelizmente, inesquecível.

E quando passa, você consegue entender o porquê de ser inesquecível: durou mais tempo do que você deveria ter deixado durar.

Vocês estavam saindo e tudo parecia mágico. Ele dava todos os indícios de que estava na sua. Dessa forma, você sentiu segurança o suficiente para gostar um pouquinho dele. E quando se deu conta, o pouquinho havia se transformado em um muitão. E então vocês tiveram a primeira conversa sobre o relacionamento de vocês, e consequentemente a primeira decepção: ele não estava tão na sua quanto você achava que ele estava.
Todos os indícios que ele deu no início não eram demonstrações sinceras de carinho e paixão. Eram apenas jogadas sujas e baratas para te conquistar, sem nenhuma intenção de realmente ficar com você.
O problema é que funcionou e você acabou se apaixonando. E agora?

Nesse momento, só há duas opções: insistir ou desistir. E como toda mulher apaixonada é também burra, cega, surda e retardada, desistir não é uma opção. Então você opta por insistir, achando que com o tempo ele se apaixonará por você.
E é aí, nesse exato momento – em que você deveria fugir, mas você não foge – que você assina seu atestado de bromélia.

A bromélia é aquela que prefere gastar suas energias alimentando ilusões, do que enxergando a verdade que está bem na sua frente. Ela mantém uma esperança burra de que um dia ele mudará de ideia. De que um dia ele esquecerá a ex. De que um dia ele voltará do intercâmbio, da viagem, da puta que pariu. De que um dia o trabalho dele não exigirá tanto dele. De que um dia ele largará a namorada/noiva/esposa. De que um dia ele perceberá o quão linda, maravilhosa, inteligente, independente, especial e única ela é e ficará com ela, só com ela, e não existirão mais desculpas.
E então ela fica lá. Agarradinha naquele tronco. Insistindo. Continuando. Ignorando todos os sinais. Esperando pacientemente a sua vez chegar.

O problema é que a vez da bromélia nunca chega.
O tronco está acomodadíssimo. Ele tem uma mulher incrível lambendo suas bolas (literalmente), sem que ele precise oficializar alguma coisa com ela. Ele a sujeita a situações degradantes e humilhantes, e ela – com o amor próprio completamente dilacerado – aceita, acreditando que um dia ele mudará esse quadro. Mas porque ele mudaria um quadro que favorece exclusivamente a ele?
A bromélia se recusa a acreditar, mas a verdade é que ele não vai mudar nunca.
Ela nunca será içada a categoria de oficial-e-única-flor-do-vaso. Afinal, se ele fizesse isso, acabaria com os esquemas que tem com as outras bromélias que também estão grudadas em seu tronco.
A bromélia não achava que ela era a única, achava?

bromelia4

O tronco até que rega a bromélia. Mas não muito. Apenas o suficiente para deixá-la sentimentalmente escravizada, sem forças para abandoná-lo.
Ele a rega no máximo uma ou duas vezes por semana e some nos outros dias.
Afinal, ele tem outras bromélias pra regar também. Então precisa administrar seu tempo para que nenhuma bromélia fique muito tempo sem regar, mas que também nenhuma se acostume com mais água do que ele está disposto a oferecer.

O tronco não se esforça para ficar com a bromélia, mas também não se esforça para botar fim ao sofrimento dela. Ele é covarde e prefere beber ácido sulfúrico no café da manhã do que ser realmente sincero e dizer com todas as palavras a frase que poderia libertar a pobre Bromélia de uma vez por todas: eu não vou ficar com você nunca.
Ao invés disso ele é todo trabalho nos agradáveis foras. Com frases com excesso de “mas”, porém escassez de verdades.
Você é maravilhosa, mas não posso me dedicar a alguém nesse momento“, “eu quero muito ficar com você, mas você merece alguém melhor“, “gosto de você, mas não do jeito que você espera“.
E a bromélia, com ouvido seletivo causado pela paixonite aguda, só escuta o que é dito antes do “mas” e ignora o que vem depois, quando deveria fazer justamente o oposto.

É fácil para todo o resto do ecossistema enxergar que a bromélia está fazendo papel de otária, menos para ela. Porque por mais que o tronco a humilhe, por mais que ele suma por semanas, por mais que ele visualize e não responda, por mais que ele dê sinais claros e irrefutáveis de que não vai ficar com ela nem agora e nem nunca, ele sabe chegar de mansinho e dizer exatamente o que a bromélia quer ouvir.

Então o tronco pode pisar, mijar, cagar em cima da bromélia e de seus sentimentos que ela continuará de prontidão esperando pelo primeiro sinal de vida do Tronco. Mesmo ele estando muito pouco disponível para ela, ela sempre estará para ele.

O tronco tem lábia e ele não economiza para manter suas bromélias vivas.
Então quando a bromélia jura para ela mesma que é a última vez, o tronco vem com uma mensaginha de falsa saudade, vem com uma musiquinha melosa, vem com uma ligação inesperada, vem com um jantar a luz de velas, vem com um choro de crocodilo, vem com uma conversinha furada. Vem com uma miséria qualquer que ele sabe que vai colar.
E para a bromélia, que já está com o coração em frangalhos, qualquer migalha sentimental soa como declaração de amor.

A bromélia acabou se acostumando com o “o meu trabalho ocupa todo o meu tempo“. Acabou achando aceitável o “não quero nada sério no momento“. Acabou engolindo o “o problema não é você, sou eu“. Acabou se contentando com o “eu preciso de mais tempo para resolver a minha vida“.
Ela acabou se contentando com qualquer coisa. Afinal, se acostumou com a ideia de ter qualquer coisa. Se acostumou com a ideia de ser qualquer coisa.

A bromélia acredita em desculpas que lá no fundo do seu caule ela sabe que não passam de mentiras confortantes. Ela se recusar a aceitar que o mais sensato é desistir, pois desistir exige coragem. Exige esforço. Exige desapego emocional. E a bromélia não está preparada para nada disso. Ela ainda vai ter que tomar muita tijolada na cara do tronco para aprender a ser corajosa, esforçada e desapegada.

Mas uma hora a bromélia vai desistir. Uma hora a bromélia vai olhar para os lados e perceber que ainda existem muitos outros troncos vazios ao redor. Muitos outros troncos muito mais bonitos, grandes, saudáveis e interessantes do que aquele que ela insiste em se agarrar.
E o tronco sabe disso. Sabe e não se importa. Porque para ele, ela ficar ou ir embora, tanto faz. Ele não se importa com a bromélia e nunca escondeu isso dela. Ela é que não quis enxergar.

Resta a bromélia decidir por quanto tempo mais ela vai continuar perdendo tempo em uma relação que nunca vai dar primavera.

FONTEDeu Ruim
TEXTO DEMarina Barbieri
COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS