A incrível geração dos que não conseguem amar

Certa vez, pensei em escrever um livro. Juntei aventuras, cacos de vidro, uma porção de fotos e percebi que tinha muito material ali para transformar em palavras. Certa vez, Saramago escreveu sobre um lugar em que todos ficaram cegos. Numa outra vez, o mesmo Saramago falou sobre um lugar onde ninguém mais morria. Humildemente, me inspirei nas histórias de qualquer um para falar de um lugar em que ninguém mais amava. E esse lugar existe.

E existe muito mais perto do que você imagina. Talvez viva nele e sequer tenha se dado conta disso. E se por um acaso já tomou nota a respeito, tiro o meu chapéu: nem todo mundo nota, em si mesmo, as cores de seu coração. A quantidade é ainda menor quando falamos entre pessoas, afinal há poucas que, de fato, se notam.

E está tudo bem. É difícil prestar a devida atenção a algo que passa na velocidade da luz, na rapidez de um beijo na balada ou na intensidade de um encontro do Tinder. Nesse jogo em que o controle um não quer dividir a fase com o controle dois, o game solo fica cada vez mais interessante. Ninguém mais quer saber de vencer o chefão juntos: eu passo daqui e você passa daí. Até disputam uma ou outra partida no mesmo time, marcam alguns gols, mas ao final o juiz pede a bola e vai cada um para o seu lado. Mas pouco importa, afinal todos voltam para a primeira fase em algum momento. Relacionar-se é o nível hard do jogo da vida.

Porque boa parte das pessoas que jogam fazem parte da incrível geração dos que não amam. Dos que não conseguem amar. Transitam pelos corredores do trabalho no início do dia sem amor: estão ali porque precisam. E aí vem um autor que escreve sobre não precisar amar o trabalho e que está tudo bem. Dane-se não amar o que se faz de segunda a sexta (e muitas vezes aos finais de semana), por oito, nove, dez ou incontáveis horas de não-amor profissional. Você é bom no que faz e isso basta, afinal o bolso sai cheio no fim do mês para pagar as contas, a balada e/ou as férias em Miami.

E por falar em férias, de mala e cuia partiu o coração. Esse daí, cansado das cicatrizes de um tempo em que namorar parecia mais fácil e natural, resolveu que precisava de uma folga. Esse daí, que de tanto levar uns belos socos no ringue da vida, percebeu que merecia uma caipirinha de frente pro mar e assistir, de longe, seu invadido viver. Isso, invadido, pois nessa geração dos que não querem amar ou não conseguem, se o coração invade é um problema.

Mas está tudo bem não amar. Isso evita. Isso protege. Isso blinda. E isso muitas vezes não preocupa. Dormimos em casa alheia sem ao menos saber o nome de quem está no travesseiro ao lado. “Pega, mas não se apega!”, diz o amigo no bar após ouvir sua história enquanto o garçom põe na mesa de vocês um balde de cervejas. “Não responde a mensagem dele essa semana para não se apegar!”, diz sua amiga na mesa ao lado enquanto o garçom coloca um outro balde de cerveja para vocês.

Quem ganha nessa de “fica, mas não se envolve” é o dono do bar, que fatura com histórias em que o coração ficou no balde, o orgulho em cima da mesa e suas vontades, por vezes, mascaradas. Na incrível geração dos que não conseguem amar, o sexo, o trabalho e muitas relações que temos diariamente (até consigo mesmo), tornaram-se tão rotineiros e arrastados quanto respirar num dia cansativo.

E se tiver medo de amar, está tudo bem. Se medo não for a resposta, tudo bem também: não precisamos ter resposta pra tudo. O fato é que ficam dois controles em cima da mesa para um mesmo jogo, empoeirados por não querer entrar no nível hard da parada. Certa vez, Saramago falou sobre o medo de ficar cego em um livro. Eu ainda escreverei o meu.






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