A idade vai chegando e os sonhos se despedem como quem vai comprar cigarro e não volta mais

Por: Karen Curi
Publicado originalmente da Revista Bula.

Ainda falta muito para o inverno e eu aqui, cansada de mim mesma, frouxa, espaçosa, avulsa, solta verão adentro. De repente a cama ficou enorme, tão extensa quanto as noites ao redor da minha única e silenciosa companhia, lendo romances e poemas sobre um amor que desconheço. Deve ser a época, a velha história de fim de ciclo, de recomeço. Ano passado foi a mesma coisa.

Pedi ao Papai Noel — sem metáforas, pedi mesmo — um amor desses de cinema. Ele não me atendeu ou, coitado, entre tantas súplicas, capaz que ele tenha me enviado o rapaz sem o capricho de um lindo embrulho, e eu, desatenta e atarefada, não reparei no pacote. Outra, por certo mais esperta, se encarregou da minha encomenda. E cá estou, clamando e reclamando, como de costume.

Bem, por via das dúvidas, esse ano eu pedi outra vez, com todas as letras e uma ressalva: “Já não faço questão de príncipe, cavalo branco, rosas colombianas, serenata, anel de compromisso e beijo na chuva. Eu só quero um amor que me ame. Só. Será muita coisa, meu bom velhinho?”

Parece óbvio, mas não é. Primeiramente deixe-me pôr os pingos nos is. Não é contentar-me com pouco, ou ter modéstia sentimental. Aliás, nunca fui de acatar contenções amorosas. Nada disso. Eu acho que a idade vai chegando e os sonhos romancistas vão se despedindo como quem vai ali, comprar um cigarro, e se distrai pelo caminho, encontrando outro rumo, outra gente, outros abraços. Com o tempo a gente aprende que amor que tira o fôlego não só nos rouba o ar, mas leva também um pedaço de nós. E para o nosso infortúnio ele nunca devolve.

Deixo as cenas tórridas de um amor transcendental para os grandes roteiristas, aqueles que fazem de nós, mulheres, inconformadas, revoltadas e constantemente insatisfeitas quando o assunto é o coração. Terminamos o filme com sinusite, quadro severo de desidratação e 2 quilos mais gordas. Os dias que seguem oscilam entre a esperança de que seremos ganhadoras absolutas da loteria acumulada do amor, e a certeza de que o mundo é povoado por ogros, sapos, lobos e todos os seres que não se parecem nada com o galã-romântico-sensível-educado. Tudo bem. Estamos mais para a sobrevivente de um desastre atômico do que para a mocinha-doce-cordial-passiva.

Logo eu, que falo tanto sobre liberdade, fiel defensora das maravilhas de ser a minha dona exclusiva e intransferível. Logo eu, bicho solto, alma de pássaro, que sempre primei por voar, agora almejo um pouso numa gaiola para dois, para quatro, jardim, cachorros, dias e noites compartilhadas e alegrias multiplicadas. É… A vida é mesmo uma roda gigante. “Quem diria?”, diriam as minhas fiéis companheiras de orgulhosa solteirice. “É fogo de palha”, “vontade que dá e passa”. O que eu posso dizer sobre isso? Uma única e derradeira palavra: cansei.

Cansei de me bastar, de não me doar, da minha autossuficiência. Cansei dos encontros sem sentido e de achar que essa falta de sentido era o grande sentido da vida. Cansei de ser unidade. Agora eu quero ser par. Ser a razão de um sorriso escancarado, a cara de bobo consentido, o coração que galopa, a voz que amorna por dentro. Eu quero ser a importância de alguém, a prioridade, o orgulho, o elogio, o norte, o sul, o leste e o oeste. Eu quero me entrelaçar, dançar sem música os passos de um tango inventado por nós, e varar noites falando sobre as estrelas, física quântica, céus e infernos. Eu quero alguém que voe comigo e que pouse comigo.

Me despeço aqui, acreditada de que Papai Noel me trará um amor do meu jeito. Porque fui uma boa menina, e sim, mereço um amor que me ame. Que venha sem hesitar. Serei o seu melhor presente. Pode apostar.

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