A delícia do amor sem razão

Pertenço às declarações rasgadas, às madrugadas insanas, à poesia piegas. Meu amor é esse fruto ácido das inconsequências juvenis. Meu amor não se veste bem, ele sai desgrenhado na noite cheia de luzes. Não entra pela porta da frente, ele pula a janela. Meu amor não é mensurável. Ele é daqueles que não se ajustam.

Não pertenço à irritante prudência dos amores modernos. Nunca me dei a esses sentimentos contidos. Na era dos corações mudos, meu bem, eu sou o grito. Meu amor é canção e já começa pelo refrão.

Eu amo apesar das caras de espanto, dos burburinhos diante da loucura das paixões ébrias, amo apesar da sua cara de quem não entendeu nada. Tolice, meu bem, o amor não foi feito pra ser entendido.  Eu amo a sua alma confusa, insana, errante – eu amo apesar do erro.

Eu não amo no seu tom. Meu amor toma um porre e te faz uma serenata desafinada. Não acompanha tua bossa nova: meu amor é rock’n roll. Ele escreve versos tortos em guardanapos molhados numa mesa de bar. Meu amor não vai embora quando é preciso. Ele fica, bate, insiste.

Meu amor não te procura as virtudes. Ele não pondera, não te espera no altar, não analisa teu boletim, não aceita o teu portfólio. Você me ganha nos detalhes.

 

Meu amor renasce toda vez que você sorri bonito, meio de lado, como quem não espera muito do dia seguinte. Ele dança cada vez em que os nossos passos cambaleantes se encontram. Ele me anestesia os sentidos, me confunde as certezas, arrebata a minha consciência. Ele não aprende os passos, te tira pra dançar num supetão, num descompasso.

Meu amor não se esconde em nenhuma máscara de pureza. Se mostra inteiro, altivo, vivo. Antes de se explicar, ele te confunde. Mostra a que veio, descalço, despido.

Amor que se preze não pensa. Ele não se pergunta, ele vai. E te leva junto. O amor é o porta-voz da insanidade. E se for consumado, sem medo, sem vergonha e sem pudor: que me consuma.

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