A culpa não é sua

Era domingo de manhã. Minha mãe estava na cozinha, meu pai tinha ido à padaria. A campainha tocou. Era um amigo do meu pai. Alto, cabelos grisalhos, sempre de bom humor. Eu tinha 8 anos. Abri a porta e disse que podia entrar, logo em seguida gritei avisando à minha mãe que ele havia chegado. Gostava dele, costumava me trazer doces e me presentear no dia das crianças. Eu era amiga da filha mais nova dele. Enquanto minha mãe vinha da cozinha ele colocou a mão em um dos meus mamilos, ainda em formação e disse baixinho: “delicia.” Fiquei sem reação, sem entender. Logo em seguida minha mãe chegou. Ele sorriu pra ela, como se nada tivesse acontecido. Tento lembrar, mas minha mente bloqueia. Bom, talvez isso seja coisa da minha cabeça. Talvez eu tenha com isso e esteja confundindo as coisas. Sei lá. Deve ser.

Minha tia cuidava de mim e da minha irmã, enquanto meus pais trabalhavam. Eu tinha 6, minha irmã 3. Eu me lembro dela tirando minhas calças e acariciando minhas partes intimas, ainda tão pouco desenvolvidas. Sempre disse que eu era “seu garotinho favorito”. Eu a amava e não entendia o porquê daquilo, mas ela só mandava eu ficar quietinho enquanto ela me “examinava” (ela chamava assim). Esse exame acontecia sempre que meus pais não estavam em casa. Era nosso segredo, disse que se eu contasse pra alguém, ela iria embora pra sempre. Mas por que? Eu não entendia, só sabia que não queria a perder. Eu a amava.

Minha mãe trouxe mais um homem pra casa. Toda vez que ela traz um desses caras, eu tenho vontade de sumir. Por que ela não dá certo com um cara legal? Mas esse cara é diferente. Não é só mais um namorado esquisito dela. Ele me olha de uma forma que me assusta. Me intimida. Uma vez o vi olhando para os meus seios. Caramba, será que eu vi certo? Não… Isso é coisa da minha cabeça. Esse cara sabe que só tenho 16 anos? Não uso mais short ou decote se ele estiver por perto, e quando ele chega me tranco no meu quarto. Não quero que minha mãe pense que quero seduzi-lo de alguma forma. Esses dias acordei com ele passando a mão nas minhas coxas enquanto eu estava deitada no sofá, tomei um susto e o chutei por impulso, ele pareceu desnorteado e disse que estava só brincando pra me acordar.Brincando? O quê? Ainda não falei com a minha mãe. Ela anda meio louca desde o divórcio com meu pai. Tenho medo de estar interpretando tudo isso mal.

Sempre aprendi que família é coisa sagrada. Acho que nem todo mundo pensa assim. Ele era da minha família, mesmo assim não teve compaixão por mim. Eu era tão nova, tão inocente. Tento não pensar nisso. Como ele pode me tocar daquele jeito? Eu me senti imunda, usada. O problema era eu? Meu Deus, onde o Senhor estava quando ele fazia aquilo comigo? Porque eu? Será que o senhor pode me responder? Não leva a mal… Eu só queria uma solução pra essa dor que parece nunca sarar por completo.

Tive uma babá quando criança. Loira, jovem, cabelo curto. Lembro do quanto me incomodava quando ela me dava banho. Nem entendia, mas odiava. Ela tocava meu órgão genital e dizia que eu seria um “homem gostoso”. Uma vez me disse que quando eu crescesse, casaria comigo. Colocava-me em seu colo e apertava minha perna enquanto me pressionava contra seu seio. Eu tinha apenas 7 anos. Sentia um desespero que não entendia. Hoje sou adulto e não consigo me aproximar das pessoas sentimentalmente, odeio que me toquem, não sou feliz.

Meu marido me obriga a transar com ele mesmo quando não quero, diz que é minha obrigação de mulher. E sobe em mim. Me machuca. Dói. Tenho vergonha de contar pra alguém. Todos o acham ótimo, jamais acreditariam em mim.

As histórias se repetem. Todo dia. Em todo canto. Você pode fechar os olhos pra isso, fingir que não existe, mas elas estão lá. Existem pessoas sofrendo caladas. Existe gente abusando sem limites por saber que a vitima vai se calar. Existe quem diz que é mentira, é besteira, é mal-entendido. É quase sempre do mesmo jeito. A vítima não conta. Por achar que ninguém vai acreditar, por imaginar ser coisa da sua cabeça, por não querer “criar um caos na família”, por vergonha, por achar que tem alguma culpa, por não querer preocupar os pais amorosos tão ocupados. E dia após dia atravessa uma guerra que ninguém a vê lutar, só ela sabe o estrago por dentro.

A gente precisa falar sobre isso. Precisa parar de saber que existe e ainda assim viver como se não existisse.

Esse texto é para você que já sofreu algum abuso ou se viu em algum dos trechos acima: saiba que existem milhões de pessoas que já se sentiram ou se sentem como você se sente/sentiu. Espero que você entenda que isso nunca foi culpa sua. Não era por causa da roupa curta que você escolheu nesse dia. Não foi por causa do sorriso inocente que você deu. Não, não foi culpa sua de maneira nenhuma, então, por favor, tire essa ideia da cabeça, não tente justificar a maldade feita a você.

Pare de agir como se fosse coisa da sua cabeça quando você sabe que não é. Encare. Enfrente. Se necessário, grite. Se impossível, fale baixinho. Mas fale. Coloca pra fora. Se não for pra um amigo, que seja para um terapeuta, mas não carregue isso sozinho(a). É uma ferida invisível, mas, assim como as visíveis, ela só vai sarar se você deixar doer. É complicado, é doloroso, eu sei, mas não deixe que sua vida se resuma a isso. Você é mais, muito mais!

A vida continua. Há esperança. Há um novo amanhã. Você é produto do seu passado, mas não precisa ser um eterno prisioneiro dele.

TEXTO DEDrica Serra
COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS