A bagunça que você fez em meu coração

Acordei. Você está descabelada, levantando da cama com pressa, me acordando e me xingando, daquele jeito meio-fofo-meio-reclamão que só você tem. Você está atrasada, e você sempre foi maniática em relação a essa coisa de atraso.  A sua forma racional de ser – que, aliás, eu acho linda – sempre tenta pôr tudo em seu lugar, como que querendo organizar as bagunças da vida. Mas, sem querer, você bagunçou uma coisinha, algo que talvez nem seja tão relevante assim. Você bagunçou o meu coração.

Ter de lidar com o imprevisto é o que dá quando se deixa a porta do coração aberta para que alguém entre e faça o que bem entender. E a sua entrada foi de mansinho, calma, quase despercebida. Você entrou e parece que ainda não reconheceu a saída.

Você foi entrando como quem não quer nada, mas acabou ficando com tudo.

Pisou seus pés delicados na sala de estar do miocárdio, e após se dirigiu à cozinha para fazer um lanche com a paixão que deixei na geladeira (deixei-a lá pois, antes de te conhecer, pensava que ela permaneceria para sempre fria, gélida e estática).

Não se dando por satisfeita, lanchou também minha companhia, meu altruísmo e minha solidariedade. Só que você nunca foi de se contentar fácil, e foi até a estante mais próxima ler os meus poucos livros de felicidade e alegria, como que querendo compreender o que me faz feliz para poder me ajudar a ser alguém mais completo na tua companhia. Revirou a casa que é o meu coração à procura de todos os sentimentos e sensações ruins, e, ao encontrá-los, dirigiu-se ao banheiro para dar descarga em cada um deles.

Antes, meu coração estava organizado, do jeito que – eu pensava – tinha que estar. Todas as faxinas que eu fazia eram para separar a dor do prazer, a alegria da tristeza, o sorriso da cara fechada. Mas foi só deixá-lo aberto para você entrar e mudá-lo drasticamente, usando e abusando das poucas alegrias que eu já tinha, e ainda dando lugar a novas que só você podia me proporcionar.

Você encheu as veias e artérias do meu coração de sorrisos e os fez circular por toda a casa. Você ensinou meus glóbulos brancos a combaterem as caras fechadas, e baniu toda a dor do meu organismo. Você bagunçou e destruiu toda a organização que antes eu tinha em meu coração, e só deixou o prazer.

Lembro como se fosse ontem, a bagunça que você fez em meu coração. Por dentro, vivo o caos que é te amar. Por fora? Bem, estamos agora nos arrumando para não nos atrasar.

Ainda nem levantei, mas um instante basta para percorrer o salão do miocárdio e ter a certeza de quecada bagunça vale a pena se for ao teu lado.

FONTEamor.ano-zero
TEXTO DEAlysson Augusto
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