13 lições que podemos aprender com o suicídio de Hannah Baker

Depois de dias sendo bombardeada por publicações, vídeos, textos, fotos e comentários sobre a nova série do Netflix, me rendi a curiosidade e decidi assistir a 13 Reasons Why.
Demorei quatro dias para concluir todos os 13 episódios. Poderia ter assistido em menos tempo, eu sei, mas confesso que torci o nariz para a série no início e me forcei a terminá-la. E sinceramente agradeço por ter obrigado a mim mesma a chegar ao fim. Foi a minha melhor decisão.
A série começa devagar, arrastada e bobinha. Ela não cativa logo de cara, mas no final, diria que nos últimos 3 episódios, ela te prende, e você se vê completamente imerso naquele universo, sentindo ódio por alguns personagens, amor por outros e compaixão por vários.

Alguns podem dizer que a série é sobre bullying. Outros que é sobre suicídio. Mas sinceramente, acredito que seria raso demais encaixar a série apenas nesses temas tão evidentes. A série é sobre muito mais do que isso. A série é sobre crescer. E o quão difícil essa tarefa é.

Não se preocupe. Não serei tão óbvia a seguir com frases que apesar de corretas, acabam não dizendo nada de útil, como “bullying é errado” ou “suicídio não é alternativa”. Isso todo mundo já está cansado de ouvir, e mesmo assim não parece resolver muita coisa, então vamos conversar sobre os pontos que estão além das frases feitas. Vamos falar sobre o que está escondido nas entrelinhas da série e as lições que podem ser tiradas daí.

Esse post contém spoilers. Se não quiser lê-los pare aqui.

1- Crescer é uma merda
Você com certeza já ouviu alguém dizer que a adolescência é a melhor fase da vida. Adulto adora dizer isso. E o único motivo possível deles dizerem tamanha mentira é um só: eles se esqueceram de como realmente é a adolescência.
A adolescência não é bela, não é fácil, não é gostosa. A adolescência é uma merda. É cruel. É difícil. É injusta pra caralho. É como se você fosse jogado, todos os dias, em uma arena para lutar com dezenas de leões famintos, tendo como arma apenas uma faquinha de passar manteiga no pão.
A adolescência beira o impossível. E infelizmente nem todos saem vivos dela. Alguns desistem no meio do caminho.
Quando criança nossos pais nos protegem do mundo. Eles estão sempre tapando nossos olhos de ver a realidade da vida, porque a realidade é feia e cruel, então passamos a infância numa bolha criada pelos adultos onde o mundo real não nos alcança. A gente cresce em um conto de fadas com um lindo universo girando ao nosso redor e tendo como único objetivo satisfazer nossas vontades.
E então a gente cresce um pouco mais, sai da bolha e descobre por si só a dura realidade: o mundo é feio, doloroso e não gira ao nosso redor.
E essa descoberta dói.

2- Adolescentes são cruéis
Como dito no primeiro tópico, a adolescência é difícil. E ela é para todos. Por mais bem resolvido que um jovem pareça ser, ele nunca realmente é tão bem resolvido assim.
A adolescência é um misto de descobertas do mundo com descobertas de si próprio. Nenhum adolescente tem caráter formado. Ele ainda está descobrindo quem ele é, e durante esse processo ele às vezes escorrega, erra, esbarra em outro alguém, cai e levanta sem pedir desculpas.
O adolescente é um ser confuso por natureza. E geralmente tanta confusão reverbera em péssimas escolhas seguidas por péssimas ações. E muitas vezes essas ações afetam outras pessoas. Na maioria das vezes outros adolescentes.
Justin partiu o coração de Hannah. Jessica e Alex, que eram seus amigos, a decepcionaram. Marcus, Zach, Tyler, Courtney e Ryan, idem. E nada disso faz de nenhum deles pessoas ruins. Eles eram apenas adolescentes.

3- Adolescentes são também dramáticos
Adolescente leva tudo a sério demais, né?
Quando passamos da adolescência é que conseguimos enxergar o quanto éramos dramáticos, exagerados e ridículos. Levávamos tudo a um patamar de drama capaz de matar de inveja qualquer roteirista de novela mexicana.
Não conseguimos enxergar que aqueles problemas que temos na adolescência não seguem com a gente por além dela. Eles nascem, crescem e também morrem durante a juventude.
É difícil um adolescente conseguir enxergar além do seu mundinho. Para ele, o mundo se resume ao pátio da sua escola, e então uma coisa besta e banal como uma fofoca, uma briga com o amigo, ou uma dor de cotovelo, bate como uma bomba atômica.
Para Hannah, um falso rumor iniciado por Justin e Bryce parece o fim do mundo.
Os roubos das cartinhas de dia dos namorados por Zach parecem muito mais graves do que de fato são.
A investida amorosa de Marcus, motivada pela fofoca inicial, dói como uma facada no peito.
O poema divulgado por Ryan no jornal da escola parece o apocalipse.
Drama! Drama! Drama!
Se Hannah tivesse sido forte e enfrentado a adolescência, ela cresceria e nem se lembraria mais de nada disso. Assim como eu e você – que agora me lê – também já criamos dramas adolescentes em cima de coisas que hoje em dia não importam mais.
Todo o drama vai embora sem aviso, sem dizer tchau, e um belo dia nos pegamos preocupados em pagar as contas de casa e em não se atrasar pro trabalho, ao invés de se o cara que saímos semana passada vai nos ligar ou se a nossa amiga vai nos encontrar na lanchonete, e percebemos então que viramos adultos e a tempestade no copo d’água ficou pra trás.
O drama adolescente acaba no exato momento em que o o primeiro boleto da vida adulta aparece na caixa do correio.

4-Os adultos precisam prestar atenção nos adolescentes 
Não importa por qual drama o adolescente esteja passando. O ponto principal nunca é o drama em si. O ponto é sempre a forma como aquele jovem está digerindo esses dramas.
Alguns lidam bem. Já outros, nem tanto.
Por mais que você, um adulto, ache que aquele fato em questão seja exagerado, ridículo e pequeno (e provavelmente você estará certo), é preciso entender que para aquele adolescente, não é.
Então, não ignore algo que esteja doendo em outro ser humano.
Nós sabemos que uma hora vai passar, mas temos que nos focar no enquanto não passa.
Hannah tentou pedir ajuda aos adultos em mais de uma oportunidade. Hannah pediu ajuda, do seu jeito, ao Sr. Porter e à professora, mas nenhum dos dois levou realmente a sério seus pedidos de ajuda.
Se algum dos dois tivesse dado um simples telefonema para os pais de Hannah dizendo “sua filha precisa de ajuda, procurem um psicólogo”, talvez o suicídio tivesse sido evitado.
Profissionais da saúde mental não são salvadores de ninguém, mas são pessoas que estudaram anos de suas vidas para tentarem, da melhor forma possível, ajudarem as pessoas a lidarem com elas mesmas.
A ajuda deles é essencial.

5- Desilusões amorosas acontecem o tempo todo
Todo mundo quer encontrar a outra metade da sua laranja. Todo mundo quer amar e ser amado. E começamos bem cedo essa busca.
Hannah tinha 17 anos e já se encontrava nessa busca incansável. Cada garoto que cruzava seu caminho era um possível pretendente. Justin, Marcus, Zach, Clay. Ela esperava encontrar um príncipe encantado em cada garoto que mostrava interesse por ela. Nada de anormal, não é? Todo mundo é assim na adolescência. Mas sejamos sinceros e realistas aqui: quais são as chances de alguém encontrar o amor da sua vida aos 17 anos de idade?
Pois é, nenhuma.
Desilusões amorosas acontecem. Muitas. E na vida de todo mundo.
Não tem como fugir disso. Aconteceu comigo, com você, com suas amigas, com seus parentes, com quem você ama e com quem não ama também. Ninguém está imune a elas.
E da mesma forma que todo mundo algum dia será vítima do amor, também será, de alguma forma, o grande causador da dor alheia. Um dia somos magoados, mas no outro magoamos. Mesmo sem querer magoar, mesmo sem saber que estamos magoando.
Todo mundo está na busca do amor, todo mundo quer ser feliz, mas durante esse caminho as pessoas às vezes erram, magoam e são magoadas.
A vida é assim. Faz parte. O ser humano não é absoluto, não é perfeito.
Agora imagina se todo mundo se matasse por cada vez que alguém partiu seu coração na vida? Ninguém chegaria vivo a fase adulta…

6-Aprenda a lidar com as frustrações da vida
Merdas acontecem. Se existe uma lei universal da vida, é essa. O mundo nem sempre te será ameno, calmo e justo. Às vezes as pessoas são ruins, te sacaneiam e as coisas não saem do jeito como você queria.
É uma merda? Sim, é, mas isso não é motivo para você enlouquecer. Não é motivo para desistir. Não é motivo para culpar o mundo pelas suas tristezas pessoais e passar o resto dos seus dias sentindo pena de si. E nem é motivo para se matar.
Você nunca poderá controlar as ações dos outros, mas você pode controlar a forma como você digere tais ações e o que você faz com elas.
Você tem sempre duas escolhas: ou você usa as tristezas da vida para se auto flagelar, se machucando ainda mais, ou você as usa de aprendizado e segue em frente.
A escolha é sua e de mais ninguém.
Hannah não sabia lidar com as frustrações. Não sabia aprender com as porradas da vida. E não sabia seguir em frente. Ela era sua maior vilã. Era ao mesmo tempo vítima e algoz de si mesma.

7- Todo mundo tem seus próprios demônios internos
Hannah tinha problemas. Sim, mas e quem não tem?
Não precisamos entrar numa competição de problemas para discutir quem tem problemas maiores e quem tem menores. Isso não importa. Todo problema é importante para a pessoa que o tem, assim como toda dor é dolorosa para quem a sente.
A questão é que todo mundo tem seus próprios demônios internos.
Não podemos cair no erro de achar que os nossos problemas e dores são os maiores e que as pessoas precisam parar suas vidas para consertarem a nossa. Isso é egoísta, irreal e narcisista.
Ser amigo não é negligenciar a sua própria vida para cuidar da vida do outro. Ser amigo é segurar a sua dor com uma mão enquanto com a outra ajuda o amigo a segurar a dor dele.
Então é isso, e nada além disso, que se deve esperar de um amigo ou de alguém que se importa.
Hannah era uma adolescente sensível, problemática e mimada. Ela jogou nas costas de 13 pessoas, a maioria adolescentes como ela, a culpa de seus próprio demônios internos, esquecendo-se que eles também tinham os deles para se preocuparem.
Justin tinha uma família completamente desfuncional. Jessica tinha que lidar com o fato de ter sido estuprada por alguém que considerava um amigo. Courtney tinha problemas em aceitar sua sexualidade. E até o perfeitinho Clay tinha seus demônios. Não é explicado em detalhes, mas é deixado claro que em alguma época ele sofreu com pesadelos e teve que tomar remédios para conseguir lidar com isso.
Não adianta querer que pensem em você se você mesmo não consegue pensar nos outros.

8- Somos nossos próprios salvadores
O mundo não vai parar para que você se conserte. As pessoas não vão parar suas vidas para consertarem a sua. Cabe a você mesmo essa missão.
Hannah queria desesperadoramente um salvador. Clay passa boa parte da série se culpando de não ter sido o seu salvador. Mas a verdade é que ninguém pode salvar ninguém. Somos nossos próprios salvadores.
Alguém pode até segurar nossas mãos, ser um amigo ou um profissional e estar ao lado, mas a missão de se salvar é única e exclusiva de cada um. Não pode ser terceirizada.
A única pessoa capaz de salvar Hannah Baker era Hannah Baker.

9- Responsabilize-se 
Essa talvez seja a lição mais difícil de ser aprendida. Temos muita dificuldade em nos responsabilizar por algo. Gostamos de jogar a culpa nos outros e assim lavamos as nossas mãos. É mais fácil, não é?
É mais fácil porque quando jogamos a culpa nos outros isso nos tira a responsabilidade de ter que fazer algo para mudar, remediar ou consertar aquilo que nos desagrada. Então nos sentimos mais confortáveis no papel de vítima injustiçada ou de mero telespectador.
Somos covardes com nós mesmos.
Sheri não se responsabilizou pela placa de trânsito que derrubou. Courtney não se responsabilizou pela sua própria sexualidade. Justin não se responsabilizou pela negligencia com sua namorada. E até Hannah não se responsabilizava por nada que acontecia na sua própria vida. Ela passa a serie inteira jogando toda a culpa de suas tristezas e frustrações em outras pessoas – para ser exata, em 13 outras pessoas.
Mas tudo bem, todos são adolescentes, e como adolescentes são inconsequentes, confusos e irresponsáveis.
O lado bom é que no final todos acabam aprendendo essa lição e param de fugir das responsabilidades. Quer dizer, infelizmente nem todos. Hannah e Alex não conseguiram digerir e nem transformar em aprendizado as frustrações de suas vidas e se deixaram sucumbir pela tristeza e culpa.

10- Suicidas não vem com aviso
É errado achar que uma pessoa com tendencias suicida é aquela que anda de preto, se corta e ouve música depressiva. Nem todo depressivo é a Skye. Às vezes ele engana bem. Às vezes ele é o mais irreverente, engraçado e cheio de vida da turma. Às vezes ele faz tanta força para esconder que até consegue. Você pode ter agora mesmo alguém depressivo ao lado e nem sabe.
Não existe aviso explícito. E nem placa com letras garrafais e luminosas de “ME AJUDE”. Os sinais são sutis.

11- Vingança não é a cura de nada
Nada que é feito impulsionado pela vingança tem bons resultados para qualquer que seja o lado.
A vingança é um reflexo natural de todo ser humano, mas um péssimo reflexo natural. Queremos cegamente machucar quem nos machucou, sem percebermos que causar dor no outro não resolverá a nossa.
Alex se chateou com Jessica e quis se vingar dela criando uma lista estúpida. Todos saíram machucados dessa. Até Hannah que não tinha nada a ver com isso.
Tyler quis se vingar de Hannah por ter se recusado a sair com ele e divulgou sua foto com Courtney. Todos também se feriram. Hannah, Courtney e inclusive Tyler.
A própria Hannah faz o que faz apenas para causar dor e remorso naqueles que ela culpou pelas suas dores. As fitas não são nada além de pura vingança. E ninguém sai bem dessa história. Todos da serie se machucam. Desde aqueles que ela culpou, passando por ela própria e chegando em seus pais, que com certeza não mereciam passar pela dor dilacerante de perder um filho.
A vingança da Hannah não trouxe benefícios para ninguém. Ela queria passar uma mensagem de que causar dor nos outros é errado, mas causou ainda mais dor em todos, inclusive nas pessoas que mais a amavam e menos mereciam sua vingança: seus amáveis e esforçados pais.

12- Toda ação tem uma reação 
A série fala muito sobre isso. É o tal efeito borboleta. Tudo o que acontece, por menor que seja, tem alguma reação de igual ou maior intensidade.
Todas as nossas ações, geram reações. Nos outros, em nós mesmos, no ambiente, etc.
Quando jovens, não temos a verdadeira dimensão das consequências dos nossos atos. Essa é uma característica comum dos adolescentes, e deixar de ser inconsequente é uma lição que a maturidade ensina. O problema é quando ela ensina tarde demais. Às vezes os atos inconsequentes geram reações irreversíveis.
Como por exemplo quando Sheri bate na placa de “Pare” e a derruba, causando posteriormente o acidente que mata o personagem Jeff.
Jeff falece nesse acidente antes do suicídio de Hannah, então é o primeiro contato com a morte que os adolescentes da série tem. E o primeiro contato que todo ser humano tem com a morte é marcante e um grande divisor de águas. Ou ensina ou traumatiza.
Sheri não queria que Jeff ou nenhum outro personagem morresse, porém foi um ato inconsequente seu que gerou o acidente fatal. Sua consciência pesa, ela aprende essa lição, se responsabiliza pelo seu erro e então confessa seu ato às autoridades.
Temos aí um grande ponto para a maturidade!

13- Os sociopatas e predadores estão entre nós
Se formos analisar racionalmente os motivos pelo suicídio de Hannah, podemos facilmente encontrar um que não se encaixa no quesito “drama adolescente”: o estupro.
Estupro, em qualquer época, em qualquer idade, é um trauma que acompanhará a pessoa pelo resto de sua vida. Imagine então um estupro durante a adolescência, que já é complicada por si só?
De todos os jovens apresentados pela série, Bryce é o único que não parece se encaixar em um típico adolescente que erra mas que possui consciência para se arrepender e aprender com seu erro.
Bryce não parece possuir consciência e nem compaixão pelo próximo. Ele pensa somente em si o tempo todo. Desde que ele não se dê mal, ele não se importa com o que acontecerá e nem com quem acontecerá. Uma das principais características dos sociopatas.
Se você acha que sociopatas e predadores são esquisitões que as pessoas trocam de calçada quando avistam, você está muito enganado. Eles não tem cara. Eles são iguaizinhos a uma pessoa qualquer. E estão entre nós, vivendo como nós, sorrindo e sendo adoráveis, pelo menos por algum momento, como qualquer outra pessoa. E é por isso que são tão perigosos.
Bryce é um predador sexual. Basta a oportunidade surgir que ele rapidamente ataca. Assim foi com Jessica, assim foi com Hannah, e com certeza já foi e ainda será com muitas outras.
Ele é um criminoso perigoso, e isso independe da sua idade.
Acredito que a série nem perdeu seu tempo se preocupando em fazer as fitas chegarem a Bryce, pois de nada elas o afetariam. As fitas tinham o objetivo de fazer a consciência das pessoas pesarem, porém Bryce não possuía nenhuma. Ele nunca poderia ser afetado por elas. Seria inútil.

 

Escrito por Marina Barbieri.

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